top of page

ENTRE AS LINHAS DA VIDA

​

O conceito de verdade pode ser, muitas vezes, abstrato. Cada pessoa pode ter uma verdade sobre si mesma e sobre a vida, da qual outra pode discordar totalmente. No entanto, há uma verdade sobre todos que é concreta: o ser humano é um ser mutável e moldável. A nossa história se inicia da mesma forma que todas as demais, mas é escrita por linhas distintas que abrem inimagináveis destinos, a partir de nossos passos e das pessoas que cruzam o nosso caminho.

​

Eu diria que fui abençoada por meu caminho ter sido traçado, desde o início, pela presença de um homem que sempre se empenhou em cuidar de mim; seja em uma visão mais prática, colocando comida dentro de casa, ou em uma visão mais poética, mostrando-me as infinitas possibilidades de sonhar. Foi o meu pai que me ensinou a cantar, a dirigir, a gostar de filmes, a memorizar endereços. Também foi o meu pai quem me escutou em muitos momentos difíceis, me acompanhou nas maiores alegrias e me fez torcer para o Atlético Goianiense – tudo bem, acho que essa não foi das escolhas mais felizes.

​

Lembro-me de quase todas as nossas idas aos estádios de futebol, até mesmo em viagens para outros estados. Um brilho no rosto e um conhecimento tão vasto que ele poderia facilmente ser técnico de um time. Sempre escutando comentários no rádio, gritando com os jogadores no alambrado e me explicando as táticas das partidas. Talvez eu nunca tenha percebido com tanta clareza, pela simplicidade da coisa, mas agora vejo que ele não estava me ensinando apenas sobre o futebol em si, e sim sobre a vida.

​

O drible não era apenas um jogo de cintura; era sobre entender que as dificuldades do dia a dia podem ser encaradas com leveza e criatividade. O contra-ataque era sobre me ensinar a ser forte e reagir rápido quando algo viesse a me afligir. As posições táticas dentro de campo eram o exemplo perfeito de que eu poderia ser ou fazer qualquer coisa que quisesse; desde uma camisa 10 a uma zagueira ou volante, se é que vocês me entendem. E, especialmente, a virada de jogo era como um lembrete de que, por mais que pareça ser o fim, nada é tão ruim que não possa ter solução. Como o histórico título goiano de 2007 do Atlético, após 19 anos, em cima do Goiás.

​

Uma partida costuma ter 90 minutos de duração, desconsiderando os acréscimos, mas quando se trata da vida, o tempo pode ser tão efêmero quanto eterno. Para mim, aqueles momentos com o meu pai não duravam apenas uma hora e meia, eram um “para sempre agora”. Eram coisas que eu guardava comigo mesmo depois do apito final, quando o árbitro apontava para o meio de campo e nós seguíamos para casa a pé, como bons “campineiros”. Gostaria que ele soubesse, antes que chegue o seu último lance e a saudade mude o canto da minha torcida, o quanto eu sou grata por todas as memórias e lições. Nunca aprendi a jogar futebol de fato, não nasci para estar entre as quatro linhas, mas tenho certeza que aprendi a jogar o jogo da vida, e devo boa parte disso a ele.


Amanda do Amaral 

© 2026 por Djane Assunção  

  • 2iVxee6
  • Spotify
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone LinkedIn
  • Branca Ícone Instagram
  • Orcid
bottom of page