EU CONTRA MIM
Em algum dia, no ano de 2009, eu decidi que queria ir a um jogo. Será que escolhi mesmo? Me pergunto, porque nunca fui uma criança que gosta de esportes. Meu lance era mais as divas pops. Lembro de ir nas falecidas lan houses, onde se pagava dois reais por algumas horas na frente do computador e assistia videoclipes da Beyoncé, Britney e Gaga. Aos meus seis anos de idade, um estalo veio em minha cabeça como a euforia de uma torcida quando o time faz um gol: queria assistir a um jogo de futebol. Queria orgulhar meu pai. Miniagressões me feriam. “Bichinha, baitola, viado.” Não queria mais ouvi-las. Queria ser másculo, me sentir macho e precisava ver aquele jogo.
Era uma criança raquítica, diziam que eu só tinha cabeça e olho. Estava vestindo a camisa rubro-negra, vermelha e preta, com o mascote urubu, cuja escolha eu nunca entendi. Verde contra vermelho, no Estádio Serra Dourada. Estávamos eu, meu irmão e nosso pai, vivendo o sonho dele, enquanto eu apenas pensava nas comidas que ia devorar no estádio.
Bola vai, bola vem. A gritaria se intensificava. Um mar de vozes, com todos os tons, ecoava na minha mente; mal conseguia ouvir a minha. Tentei me encaixar, gritava quando o time do meu pai avançava, na esperança de ele me notar. “Autoriza o jogo!” Cadê a narração? Na minha cabeça, o estádio teria caixas enormes de som com o Galvão Bueno narrando, como via nas televisões. Golaço naquela bebida amarela que espumava, conseguia sentir o amargor. Ele estava perdendo o controle.
O que eu fazia lá? As luzes me cegaram, como se fosse um paraíso, era bem teísta. Os jogadores corriam atrás da bola, queriam dominá-la a qualquer custo. O suor descia como chuva, cabeça por cabeça. Era um dia quente. Apita o juiz. Na briga das aves, o periquito levou vantagem. Na hora de ir embora, me senti livre, como se algemas tivessem sido abertas. Fiquei feliz. Meu pai, já em outro plano, tinha a língua embolada e soltava palavras que eu não conseguia entender. A água salgada tomou conta do meu rosto, comecei a chorar. Não tínhamos como ir embora e o que parecia um sonho, uma curiosidade, foi tomado pelo pânico. Por que eu fui? Eu nem queria estar ali.
Em um ambiente tomado pelo medo, conseguimos carona com um policial e fomos para casa. Percebi que odiava desagradar os outros. Como em uma luta épica dentro da minha cabeça, o agrado versus o desagrado, onde um sempre ganhava. Não gosto tanto de futebol. Uma experiência que me traumatizou influenciou essa preferência?
Disso tudo, eu sei de uma coisa: ainda tento agradar meu pai.
Patrick Leal