NO NOSSO PAÍS, VOCÊ JÁ É OURO!!!
As próteses esportivas já estavam presas às minhas pernas. O metal tão frio quanto minha consciência, algo que me dava tanta liberdade agora parecia pesado demais para carregar. O ranger da porta cortou o silêncio do ambiente e, de lá, entrou meu assessor.
- Você precisa ir para o aquecimento – avisou. Não o respondi, apenas permaneci os olhos no espelho.
- Eu recebi algumas propostas de emprego. Se eu conseguir ficar com mais despesas da casa você pode continuar treinando.
- Eu não quero – disse, finalmente. Minha voz amargurada soou rude mesmo sem a intenção. Minha irritação era evidente. Ao encará-lo, seus olhos tristes se despejavam em mim resistentes a desistir como sempre.
- Eu não aguento mais, Alex. Já faz muitos anos que vivemos com pouco. Não é mais sustentável.
Ele respirou fundo, seu peito parecia pesado, a passos amenos ele se aproximou e me estendeu a mão. Não era a primeira vez que a realidade nos engolira.
- Você sabe que eu sempre vou estar ao seu lado, não sabe? – ele disse, se esforçando para levantar um sorriso.
- Eu sei. E agradeço eternamente por isso – o abracei, em seu aperto senti o carinho de quem é tão importante para mim. Muito mais do que meu assessor, muito mais que um amigo.
Depois do aquecimento meu corpo estava aceso, mas minha alma não. A pista longa me chamara para a última corrida. A torcida era voraz e, claro, os brasileiros eram os mais barulhentos, balançavam a bandeira do nosso país como se estivéssemos em uma final de Copa do Mundo.
Admito que aquilo me germinava raiva no peito, era triste ver o clamor, a paixão e a vontade não serem o suficiente para alimentar os sonhos de atletas tão talentosos e inspirados. Eu vivia de vaquinha, fazia bico, dava palestra em escolas, gravava vídeos para marcas pequenas em troca de tênis usados, era desesperador e exaustivo.
A largada soou. O som da multidão explodiu em gritos fervorosos de torcida. Meu corpo avançou como uma flecha tensa, e ainda assim minha mente permanecia no espelho do vestiário. A pista se estendeu à minha frente como tantas outras, mas hoje ela parecia mais... definitiva.
Foi no meio da curva que a vi. Uma menina pequena estava sentada em uma cadeira de rodas, balançava os braços como se pudesse me empurrar com a força da torcida. Vestida em uma camiseta do Brasil, ela gritava com o rosto pintado de verde e amarelo, meu nome saia tão obstinado de sua boca que parecia só haver eu ali.
Naquele momento tudo dentro de mim se silenciou, permiti que a torcida reverberasse em meu peito, cruzei a linha de chegada com gosto de metal marrom-avermelhado, terceiro lugar, bronze. Não era ouro. Os gritos não cessaram, quando voltei meus olhos para as arquibancadas um suspiro me foi arrancado, os brasileiros comemoravam como verdadeiros campeões, no meio de tantas bandeiras verdes sendo balançadas, um cartaz foi erguido, nele estava escrito:
NO NOSSO PAÍS, VOCÊ JÁ É OURO!!!
Engoli em seco. Aquilo não era um pódio, era um grito coletivo. Não pagava as contas, mas me lembrava porque eu comecei.
Horas depois, já fora do estádio, me aproximei de Alex. Ele estava sentado na calçada, o rosto cansado, a camisa amarrotada. Sentei-me ao seu lado e encostei a cabeça em seu ombro, por fim eu disse:
- Eu quero tentar de novo. Só mais uma vez.
Ele não respondeu de imediato. Apenas sorriu, segurou minha mão, apertou firme, e ficou ali, comigo, como sempre.
João Gabriel Olegário
Crônica vencedora do Topcom, evento que premia as melhores produções universitárias da Unialfa
