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O CHAMADO DO VAZIO

Eu sabia que ele ia frear, ele tem uma esposa e dois filhos, eu não.” A frase do automobilista espanhol Fernando Alonso soa como um sussurro assustador de quem conhece e já está acostumado com o abismo, às vezes, não o que está fora dele, mas o que grita dentro. Há algo que é duramente honesto nesta confissão: nós só desaceleramos quando temos pra quem voltar; quando não temos, o risco parece tentador e o medo fascina. É uma linha de corrida que separa o sentimento de ternura da ausência, o freio da entrega e a felicidade da solidão.

Quantas vezes nós encaramos o precipício e simplesmente não desviamos? Quantos “e se” passaram na nossa cabeça? Seja uma atitude inconsequente, uma palavra dita sem filtro ou até mesmo um atravessar de rua sem olhar para os lados. É como se aquela filosofia francesa, l’appel du vide, aparecesse na nossa mente, nos desafiando a provar para nós mesmos que ainda estamos vivos. E, inevitavelmente, isso nos aproxima da morte, não porque queremos morrer, mas sim porque estamos fartos de viver sem um propósito.

O vazio não grita, ele nos chama. E há dias em que esse chamado soa mais alto do que qualquer lembrança afetiva ou aquele plano de futuro que fizemos em uma terça-feira qualquer. Quando ninguém nos espera, não sentimos culpa nem preocupação por não chegar; não sentimos medo, caso caiamos, pelo contrário, temos curiosidade por saber se doeria. Assim como Alonso, confiamos que o outro vai parar, porque nós não temos motivos para isso.

Mas, pensando assim, o que nos falta afinal? Nem sempre é uma esposa e dois filhos; às vezes é um sonho, um pet, nossos pais, o nome em alguma lista importante, um amigo que ligue. Algo que nos lembre que somos importantes, que nos faça sentir-nos assim, mesmo quando o mundo parece indiferente. O perigo que tanto enfrentamos está em esquecer que o valor da vida não está no que temos, mas sim no que podemos construir.

Então seguimos, quase sempre no automático, às vezes acelerando a um rumo incerto. E, em algum momento, entre uma curva e outra, podemos descobrir que vale a pena frear, mesmo que ninguém nos espere. Porque o vazio chama, mas também se cala, quando nos damos conta de que ainda há vida além do abismo, que ainda há corridas que podemos ganhar sem nos arriscar. E então começamos a viver, e não apenas a sobreviver.


Emilly Soares 

© 2026 por Djane Assunção  

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