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O FENÔMENO JÚLIA

Eu nunca gostei de esportes, mais especificamente de futebol. Isso é irônico se refletirmos que, já há algum tempo, o Brasil era considerado o país do futebol, algo que hoje em dia muitos questionam, mas não vou entrar nesse mérito. Na escola, eu ficava de canto vendo os outros meninos suarem atrás da bola, com grande sede pela vitória, se deliciando com o movimento daquele quase círculo ambulante. Para minha sorte, nasci em uma família cujos pais não dão a mínima para futebol.


Porém, nada seria tão fácil assim. Se não o futebol, havia outras modalidades de exercício que, por recomendação do meu pai, que se formou em Educação Física, eu deveria fazer para melhorar a condição física. Comecei pela academia. Após um tempo, eu já tinha desanimado. Eu não tinha constância, faltava muito; fora que eu sempre fui muito magro e tenho dificuldade de ganhar massa. Acabei, lamentavelmente, largando de mão e mergulhei no sedentarismo.


Não posso dizer que hoje eu sou o maior praticante de esportes do Negrão de Lima. Eu não sou e não serei por muito tempo. Minha vida é uma eterna luta contra a preguiça de quarto. Ainda me farto na experiência de me trancar e ver as horas passando sem mover um músculo. Mas houve um episódio, ou uma série de episódios, em que esse quadro mudou. E envolve uma garota.


Seu nome era Júlia. Ela tinha olhos claros, cabelos amarelo queimado, um sorriso meigo e, mesmo sendo baixa, era ótima no vôlei. Eu a vi jogar várias vezes, éramos da mesma igreja, e nessa igreja, diga-se de passagem, há muitos projetos de treino, desde artes marciais até boxe. Vôlei era a especialidade da Júlia. Quando menos percebi, estava aceitando os convites da galera, indo em alguns treinos, especialmente para ficar perto daquela garota. Minha ansiedade social atacava, mas eu segui obstinado.


Eu estava decidido a me declarar para ela. Eu, um pobre coitado que havia tido poucas experiências com garotas, estava gostando dela, uma garotinha branca que seria o sonho de qualquer pessoa. Como eu me considero bom com as palavras, decidi escrever uma carta e entregar para ela em uma das noites de culto. Assim eu fiz. Não demorou muito e recebi sua resposta por mensagem: “Eu agradeço aos vários elogios, mas não sinto o mesmo por você. Espero que sejamos bons irmãos”. Isso bastou. Após um breve período de sofrimento, eu deixei isso para lá.


Por fim, o vôlei acabou se tornando mais tranquilo para mim, porque eu já não me sentia forçado a performar diante da Júlia. Isso era libertador. Agora eu iria poder pensar nesse esporte sem pressão alguma de ser bom. No último treino que eu fui, lá estava ela, brilhando no outro time. Junto do namorado dela.

Gabriel de Rezende

© 2026 por Djane Assunção  

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